Fernando Antônio Novais completaria 93 anos nesta terça-feira (30). O historiador, que morreu neste ano, nasceu em Guararema (SP) em 1933 e se formou em História pela Universidade de São Paulo em 1958, onde também concluiu o doutorado, em 1973.

Novais lecionou na USP até se aposentar, em 1986, e passou então a dar aulas de História Econômica no Instituto de Economia da Unicamp. Nos anos 1960, participou do Seminário Marx ao lado de outros intelectuais paulistas e foi um dos sócios fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em 1969.

Sua obra mais conhecida é “Portugal e o Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)”, publicada pela Hucitec em 1979 a partir de sua tese de doutorado, tornada referência na historiografia sobre o período colonial brasileiro. Novais também coordenou, nos anos 1990, a “História da Vida Privada no Brasil”, publicada pela Companhia das Letras.

O historiador é lembrado em texto publicado no Blog da Boitempo, que analisa um dos últimos trabalhos escritos por Novais, “História, historiografia e materialismo histórico”, publicado na revista Margem Esquerda (47). No ensaio, Novais se define como historiador marxista e discute as mediações entre o materialismo histórico e o ofício do historiador, a partir de um diálogo entre memória pessoal e reflexão teórica. O texto de homenagem é assinado por Pedro Puntoni, professor da USP.

Confira o texto completo sobre Fernando Novais que está disponível no Blog da Boitempo:

Fernando Novais: historiador marxista

Fernando Novais completaria hoje 93 anos. Neste texto-homenagem, o Prof. Pedro Puntoni fala sobre a trajetória de Novais, além de tecer uma análise potente sobre um dos últimos textos que escreveu, “História, historiografia e materialismo histórico”, publicado recentemente na Margem Esquerda (47).

Por Pedro Puntoni

Fernando Antônio Novais nasceu em Guararema, no Estado de São Paulo, em 1933. Deixou-nos este ano, depois de uma longa caminhada dedicada à História, sua profissão e seu ofício; ao ensino, que foi parte essencial de sua vida; e ao amor compartilhado com a família e os amigos.

Formou-se em História pela Universidade de São Paulo em 1958, onde também concluiu seu doutorado (1973). Iniciou sua carreira como professor assistente na Faculdade de Economia da USP (1957) e em 1961 tornou-se professor na cadeira de História Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1986. Logo em seguida, transferiu-se para o Instituto de Economia da Unicamp, onde foi professor de História Econômica.

Nos anos 1960 participou, junto com outros destacados intelectuais paulistas, do Seminário Marx. Foi um dos sócios fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em 1969.

Como professor e orientador dos cursos de pós-graduação nessas universidades, formou dezenas de mestres e doutores. Destacou-se – todos seus alunos podem confirmá-lo – como grande professor nos cursos de graduação. Ensinando com rigor e método, em aulas teatrais e conduzidas de forma perfeita: sua atividade como mestre vem – há décadas – despertando interesses, vocações e paixões.

Foi professor visitante na Universidade do Texas, Austin, e palestrante em Minnesota, Columbia, Yale, Lisboa, Porto, Sevilha, Louvain e Paris. Suas linhas de pesquisa tradicionalmente estiveram ligadas à História Social, Econômica e Política do Brasil colonial.

Fernando Novais publicou dezenas de artigos e livros sobre a história do Brasil e Portugal. Era coordenador da coleção Estudos Históricos da Hucitec, responsável pela mais densa e longeva coleção de livros da historiografia brasileira.

Sua obra maior é o estudo sobre  Portugal e o Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), publicado pela Hucitec em 1979. Neste trabalho, originalmente sua tese de doutoramento defendida em 1973, o historiador analisa a política colonial portuguesa relativa ao Brasil nas suas últimas etapas. No segundo capítulo, realiza a análise compreensiva da dinâmica e da estrutura do Antigo Sistema Colonial, visando compreender sua gênese, evolução e crise. Este segundo capítulo foi publicado no Cadernos Cebrap, número 17, do ano de 1974. Desde então, a historiografia relativa à nossa história colonial tem esse trabalho como referência obligé, por sua importância conceitual e, acima de tudo, pela problemática que induziu e ainda induz. O livro é um clássico. Como todo clássico, ele brilha pelas respostas que oferece, mas sobretudo pelo programa de pesquisa que propõe.

Nos anos 1990, coordenou a equipe de profissionais que redigiu a História da Vida Privada no Brasil, coleção ímpar em nosso panorama acadêmico, publicada pela Companhia das Letras.

Em 2005, publicou uma coletânea com os seus principais artigos acadêmicos com o título Aproximações: estudos de história e historiografia (Cosac Naif, 2005). Posteriormente, o livro foi reeditado pela 34 Letras.

Em 2011 e 2013, publicou (juntamente com Rogério Forastieri da Silva) os dois volumes da Nova História em perspectiva. Mais do que uma antologia com os textos essenciais para compreender a proposição, desdobramentos e debates sobre a chamada “nova história” (ou as “novas histórias”, como prefere Ignácio Olábarri Gortázar), o livro destaca-se pela vigorosa introdução, que propõe (e realiza) uma leitura desafiadora da historiografia moderna e de sua crise.

Sempre colaborou com a cadeira de história do Brasil colonial na USP, sua alma mater. A aula de encerramento do curso, sobre a crise do Sistema Colonial e os caminhos para a Independência, era uma ocasião para dialogar com a nova geração de historiadores e rever suas próprias interpretações.

Fernando foi um grande mestre. Ele ensinou para gerações. Estava sempre interessado na história como um ofício. Um “fazer” que exige um método, uma abordagem conceitualizante e preocupada com uma dimensão de totalização. Em outras palavras, para ele a história deve ser total, mas isso é sempre uma aproximação. Ela nunca “é” total, ela quer ser e procura, desta forma, articular e mediar as várias dimensões das ações, emoções e pensamentos dos homens e das mulheres no passado. A história quer ser ciência, mas não é. A história aspira à condição de conhecimento científico, mas não se confunde com as ciências sociais; dialoga com elas, ao mesmo tempo que delas se distingue pelo método, pelo estilo e pela forma de abordar a experiência humana no tempo.

Materialismo histórico e História

As últimas vezes em que estive com Fernando, ele mostrava-se muito animado com o texto que acabara de escrever: uma reflexão sobre a relação entre o materialismo histórico e o fazer da história – isto é, sobre o que muda no trabalho do historiador quando se adota o materialismo histórico como referência teórica. O texto é um acerto de contas com o seu próprio percurso enquanto historiador.

Fernando planejava um encontro com os alunos do curso de História da USP para debater o seu texto. Ele sempre defendia a importância do diálogo com as “novas gerações”, onde dizia encontrar vigor intelectual, genuíno interesse pelo ofício e pelo pensamento teórico.

Publicado agora na Margem Esquerda (47), o texto é uma aula de teoria e de método; mas também um depoimento pessoal.  Fernando inicia definindo-se como um historiador marxista (e não um marxista historiador, como gostava de explicar nas suas conferências). Em um “movimento pendular entre experiência pessoal e problemática teórica”, ele parte de rememorações e reminiscências (“marca incontornável desta fase da vida”) para oferecer ao leitor uma potente reflexão sobre a posição de historiador marxista no fazer da história, em diálogo com o universo dos cientistas sociais.

Para Novais, ser historiador marxista é compreender a história a partir do materialismo histórico, isto é, conceber cada sociedade como uma totalidade historicamente determinada, estruturada por relações de produção e atravessada por contradições e conflitos, e explicar o movimento histórico através das mediações entre essas estruturas e a ação dos homens. Desta forma, ele nos oferece uma reflexão sobre a especificidade da história diante das ciências sociais para propor uma releitura historiográfica do materialismo histórico.

A História distingue-se das ciências sociais por ter como objeto o conjunto do acontecer humano e por articular necessariamente narrativa e explicação. Nesse quadro, a Nova História, embora tenha ampliado significativamente os objetos da investigação histórica, teria respondido à crise dos paradigmas sobretudo pela abertura temática e pela redução da ambição conceitual. Novais propõe, em contraposição, recuperar o marxismo como teoria da história, sem reduzi-lo ao economicismo. Para isso, amplia o conceito de modo de produção, concebendo-o como forma de articulação das diferentes esferas da existência numa configuração historicamente determinada.

A tarefa central do historiador marxista consiste, então, em estabelecer as mediações entre estruturas de longa duração e acontecimentos, articulando modo de produção, luta de classes e ação histórica. O fracasso da experiência soviética não invalidaria, nessa perspectiva, o materialismo histórico, pois não se pode confundir uma configuração histórica particular com a teoria marxiana da história. Esta última permaneceria incompleta e aberta, tendo como horizonte a emancipação humana ou desalienação.

O texto termina retomando a ideia de aposta. Para ele, não se trata da certeza de que a história caminhe necessariamente em direção a um futuro determinado, mas da aposta na possibilidade de compreender racionalmente as determinações do passado sem fazer delas uma sentença sobre o futuro. O conhecimento histórico não elimina a contingência nem substitui a ação dos homens; ao contrário, é justamente porque o futuro não está dado que o conhecimento pode se converter em ação. A aposta é, portanto, na possibilidade da emancipação humana, na capacidade dos homens de compreender as condições históricas de sua existência e, a partir delas, transformá-las.

Foi esse o sentido de seu afazer como historiador: fazer da História uma forma rigorosa de conhecimento e, ao mesmo tempo, preservar nela a abertura para aquilo que ainda não aconteceu. Fernando Novais dedicou sua longa vida a esse trabalho. Ensinou a fazer História – e, talvez mais importante, ensinou que fazer História é também uma maneira de apostar no futuro.

* Leia um trecho de “História, historiografia e materialismo histórico”, artigo de Fernando Novais publicado na Margem Esquerda (47).

** Pedro Puntoni é professor associado da Universidade de São Paulo, pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pesquisador do Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Atualmente coordena o Programa Pró-memórias do Instituto Galo da Manhã, uma iniciativa para apoiar arquivos e acervos brasileiros.

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