Um artigo de opinião publicado nesta quarta-feira (3), assinado pela museóloga Cláudia Porto, defende que os acervos históricos mantidos por parlamentos e outras instituições públicas, como prefeituras, tribunais, ministérios e autarquias, podem ir além do registro documental e servir à educação para a democracia, à cidadania e ao pensamento crítico, quando devidamente contextualizados.
Segundo o texto, casas legislativas e outros órgãos públicos guardam documentos, obras de arte, mobiliário e objetos que testemunham sua trajetória institucional, mas tradicionalmente são expostos apenas com informações técnicas, como autor, data e procedência, abordagem que revela apenas parte de seu potencial educativo.
O artigo cita exemplos nacionais e internacionais de uso do patrimônio como instrumento de transformação social: o Louvre-Lens, na França, integrado a um projeto de revitalização de uma região de decadência mineradora; o National Center for Civil and Human Rights, em Atlanta (EUA), que usa exposições para discutir racismo e direitos humanos na atualidade; o Museu da Maré, no Rio de Janeiro, construído a partir de doações dos próprios moradores do Complexo da Maré; e o Centro Cultural do Tribunal de Contas da União, em Brasília. Também menciona o Museu da Democracia, anunciado pelo Instituto Brasileiro de Museus em 2024 e ainda em funcionamento apenas virtual.
Segundo a autora, documentos, fotografias e objetos institucionais, quando contextualizados, deixam de ser evidências apenas do passado e passam a dialogar com questões do presente. Um documento sobre direitos trabalhistas dos anos 1940, por exemplo, pode ser relacionado a conquistas e desafios atuais. O texto cita ainda experiências de parlamentos estrangeiros, como o portal do Parlamento Britânico e o site do Bundestag alemão, que apresentam seus acervos como narrativas da construção histórica da democracia.
O artigo é baseado em pesquisa aplicada desenvolvida por Cláudia Porto no Grupo de Pesquisa e Extensão da Câmara dos Deputados, que relacionou o acervo da Casa a iniciativas como o Plenarinho, o programa Educação para a Democracia e a programação da Rádio e da TV Câmara, propondo estratégias de comunicação do patrimônio cultural em prol da educação cívica.
Sobre a autora
Cláudia Porto é museóloga e servidora pública no Museu da Câmara dos Deputados. Presta consultoria em comunicação digital de acervos, com foco no papel social dos museus, e leciona a disciplina Novas Mídias para a Comunicação Estratégica no MBA em Gestão de Museus e Inovação (ABGC/Expomus). É membro do Conselho Consultivo do Conselho Internacional de Museus no Brasil e da Europeana Network Association, onde também integra a Diretoria de Comunicação. Foi pioneira ao criar o primeiro site de museu do Brasil e organizou o primeiro edit-a-thon de museus, em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro. Coordenou a MuseumWeek no Brasil de 2019 a 2023 e foi diretora de estúdio de conteúdo digital por 15 anos. Atuou como coordenadora de Artes e Intercâmbio do British Council no Brasil e dirigiu a Casa Museu Marquesa de Santos, no Rio de Janeiro. Tem especialização em conservação e restauro pela Università Internazionale dell’Arte, em Florença, e em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde, pela Fiocruz, além de MBA em Gestão Empresarial pela UFRJ.