Esta exposição parte da compreensão de que a moradia não é apenas uma estrutura física ou uma questão urbanística. A casa, a rua, o bairro, o córrego e o território constituem espaços de memória, pertencimento e experiência coletiva. Registrar as moradias é também registrar as formas pelas quais diferentes populações constroem suas vidas, resistem às desigualdades e produzem vínculos com o espaço que habitam.
As fotografias reunidas nesta exposição documentam paisagens urbanas marcadas pela precariedade, pela ocupação popular e pelas transformações sociais produzidas ao longo do tempo. Mais do que representar ausência ou carência, essas imagens revelam a potência dos territórios populares como espaços de sociabilidade, permanência e construção comunitária.
Ao observar córregos atravessando bairros periféricos, ruas improvisadas, casas construídas coletivamente e paisagens urbanas em expansão, a exposição propõe refletir sobre a memória urbana como campo de disputa. O território guarda marcas das desigualdades sociais, mas também das estratégias cotidianas de sobrevivência, solidariedade e resistência produzidas pelas populações periféricas.
Inspirada em perspectivas da museologia social, da fotografia documental e dos estudos da memória, a exposição entende o registro fotográfico da moradia como testemunho histórico das formas de viver e ocupar a cidade. Essas imagens não documentam apenas espaços físicos: documentam experiências humanas, relações comunitárias e histórias frequentemente invisibilizadas pelas narrativas oficiais sobre a cidade.
A memória da moradia é também memória da luta pelo direito à cidade, pelo saneamento, pela permanência territorial e pelo reconhecimento das periferias como produtoras de cultura, identidade e história.

As moradias e os diálogos construídos revelam uma cidade marcada por desigualdades históricas, mas também pelas formas cotidianas de permanência e construção coletiva do espaço urbano. A fotografia evidencia que a memória da moradia está profundamente ligada às relações entre território, sobrevivência e direito à cidade.

Territórios da permanência
Este núcleo reúne imagens que apresentam a formação das paisagens periféricas e a construção coletiva dos territórios urbanos. As fotografias revelam bairros em expansão, moradias autoconstruídas e comunidades organizadas em áreas frequentemente marcadas pela ausência de políticas públicas.
Os territórios registrados não aparecem como espaços vazios ou marginais, mas como lugares de vida, circulação e pertencimento. As casas, os caminhos improvisados e as ocupações revelam processos históricos de migração, trabalho e permanência urbana.
A memória, neste núcleo, manifesta-se como marca territorial: ela se inscreve nas ruas, nos relevos, nas construções e nos modos pelos quais as comunidades transformam o espaço urbano em lugar habitado e vivido coletivamente.

Rios, margens e desigualdade urbana
As imagens deste núcleo abordam a relação entre moradia popular e precariedade ambiental. Os córregos, as margens ocupadas e as áreas vulneráveis revelam como a urbanização desigual historicamente empurrou populações periféricas para espaços de risco e invisibilidade social.
Os rios presentes nas fotografias funcionam como metáforas da própria memória urbana: carregam marcas do tempo, da exclusão e das transformações da cidade. Ao mesmo tempo, evidenciam a presença cotidiana das comunidades que constroem suas vidas nesses territórios.
Mais do que denunciar precariedades, as imagens revelam formas de adaptação, permanência e resistência produzidas pelas populações que habitam esses espaços. A memória aparece como experiência cotidiana da sobrevivência urbana.



Organização popular e direito à cidade
Este núcleo articula memória, organização coletiva e luta social. A presença da placa da associação de trabalhadores rurais e das imagens urbanas estabelece relações entre diferentes formas de organização popular em defesa da terra, da moradia e da dignidade.
A memória da habitação não pode ser dissociada das mobilizações sociais que historicamente reivindicaram melhores condições de vida e o direito à cidade. As associações comunitárias, os movimentos populares e as formas coletivas de organização constituem elementos fundamentais para compreender a construção dos territórios populares.
As fotografias revelam que a cidade também é resultado das lutas coletivas de trabalhadores, moradores e comunidades historicamente excluídas dos processos oficiais de planejamento urbano.
Neste núcleo, a memória surge como ferramenta política: lembrar é reconhecer as trajetórias coletivas que construíram os bairros, organizaram os territórios e reivindicaram o direito de existir na cidade.

